Gerson Ferreira

Comunicação Interna e a Cultura Organizacional.

Publicado em 13 de outubro de 2016 por Gerson Ferreira

Categorias : Pessoas

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A tecnologia influenciou de maneira irreversível a comunicação entre as pessoas, deixou o mundo mais dinâmico, o excesso de informação estimulou o intelectual tanto quanto o superficial, as relações se tornaram transitórias e o indivíduo mais consciente, complexo e independente. O impacto dessa realidade nas organizações é imenso e muitas não estão conseguindo se adaptar a essa nova fase mais orgânica, menos estável e controlável. Enquanto o mundo se comunica em rede, a grande maioria das organizações mantém a comunicação tão rígida e inflexível quanto sua hierarquia, criando um abismo entre os colaboradores e os objetivos mercadológicos cada vez mais desafiadores.

Por mais que muitos executivos declarem que a comunicação interna é um assunto estratégico, são raros os que tratam o assunto com a seriedade devida. Geralmente ela fica sob a responsabilidade de profissionais juniores sem experiência e autonomia, focados apenas em cumprir a pauta e por isso promovendo trabalhos previsíveis com baixíssimo engajamento dos colaboradores. Os principais gestores precisam parar de se preocupar com a comunicação interna apenas quando querem promover resultado ou algum tipo de mudança pontual, até porque, se há uma certeza, é de que as mudanças externas continuarão sendo frequentes, complexas, imprevisíveis e rápidas.

Assim como a boca e os ouvidos fazem parte do corpo, a comunicação interna é parte inseparável da cultura organizacional. Mesmo quando não existem canais formais de comunicação, os informais estão lá, assim como os líderes com suas atitudes, comportamentos e discursos. Considerar a comunicação como um anexo é trata-la como um conjunto de tarefas a serem executadas. A comunicação interna é inerente à cultura da empresa e sua função principal é garantir que os colaboradores sejam participantes ativos do modo como a organização sente, pensa, agi e reagi ao mundo externo. A questão é como gerenciar a comunicação interna porque ela já está lá, acontecendo nesse exato momento. Viva, mas provavelmente existindo de forma não adequada.

A tecnologia acabou com a era do monólogo das empresas com o mercado. Essa realidade exige que os distintos níveis organizacionais, passem a desempenhar seus respectivos papéis alinhados com a identidade organizacional. Ser verdadeiro ao defender uma causa pela qual as pessoas sintam vontade de ouvir o que a empresa tem a dizer, é um desafio que a comunicação interna, como parte de uma cultura deve promover. Os gestores precisam estar menos preocupados em como encontrar novos argumentos para enfatizar diferenciais de produtos e serviços cada vez mais similares, para cuidar da cultura organizacional ao ponto dela se transformar em uma vantagem competitiva, que, por ser constituída por pessoas, é impossível de ser copiada.

Com o intuito de fortalecer a cultura organizacional, bem como facilitar adaptações cada vez mais necessárias dentro do macro contexto atual, a comunicação interna deve trabalhar constantemente cinco aspectos estratégicos:

  1. Promover os valores.
  2. Estimular a ambição coletiva.
  3. Alimentar o engajamento.
  4. Desenvolver conexões.
  5. Reconhecer as relações de confiança.

Promover os valores: significa influenciar as atitudes e comportamentos. Uma organização possui uma cultura forte se os valores são claros, compartilhados e praticados. Realizei um projeto de branding para uma empresa com mais de 30 anos de existência, que desenvolve e comercializa softwares para gestão pública e cujo foco são as prefeituras. Um dos valores dessa empresa é a integridade e isso significa, entre outras coisas, não aceitar acordos “extraoficiais”. Em um país marcado pela cultura da corrupção, principalmente no âmbito político, esse comportamento deve ser reconhecido sempre que possível. Ao conversar com o CEO, perguntei se não se sentiriam tentados a abrir uma exceção em uma negociação de grande porte. A resposta demonstra o que é uma cultura forte – “Quando uma proposta assim é feita para nós, ela não passa do nosso profissional que está conduzindo a negociação. Isso acontece porque ele sabe que de nada adianta tentar trazer esse assunto para ser discutido aqui dentro. Podemos perder a oportunidade de fechar negócio, mas não abrimos mão dos nossos valores. Isso todos que trabalham aqui sabem e praticam”.

Estimular a ambição coletiva: o público interno deve ter clareza dos compromissos assumidos com os públicos externos, como os revendedores, consumidores, fornecedores, parceiros estratégicos, comunidades e outros. A comunicação interna passa a ser uma importante ferramenta para estimular uma forte determinação em cumprir esses compromissos e manter o foco na visão de futuro e no propósito, fazendo com que cada indivíduo dentro da organização compreenda o impacto do seu trabalho na realização das prioridades estratégicas e operacionais.

Alimentar o engajamento: as ciências sociais têm nos provado que a motivação que impacta na autogestão e na produtividade, depende mais de fatores intrínsecos do que extrínsecos. Isso quer dizer que reconhecer significado no que faz, compartilhar opiniões em decisões que o afetam, ser reconhecido pela sua experiência, habilidade e contribuição na conquista de resultados, são mais importantes para o engajamento do público interno do que receber um décimo quinto salário. Alimentar o engajamento dos colaboradores é um aspecto estratégico da comunicação interna no processo de fortalecimento da cultura organizacional. Lembre-se que as pessoas estão dispostas a se dedicar mais pelo simples fato de entenderem, perceberem e serem reconhecidas pela importância da sua contribuição para a realização de algo com o qual elas realmente se importam.

Desenvolver conexões: por ainda estarem engessadas dentro de rígidas estruturas hierárquicas e ambientes onde “o como fazer” é mais importante do que “o que fazer”, o baixo nível de integração entre as equipes dentro de uma organização é uma consequência natural. No mundo fora das organizações, por estarem conectadas em forma de rede, as informações chegam às pessoas por todos os lados. Da porta para fora as fronteiras físicas não são limitadoras, mas isso não condiz com a realidade dentro da maioria das empresas, onde imperam ambientes não propícios para a troca de pontos de vista, ideias e inovação.

As empresas precisam interiorizar em sua cultura a valorização das conexões entre pessoas e a comunicação interna deve desenvolver estas conexões para que as empresas sejam mais ágeis, inovadoras, competitivas e rentáveis. As melhores soluções não são privilégio de gestores melhor remunerados e colecionadores de MBAs. Elas estão disponíveis em qualquer lugar, mas precisam de líderes menos preocupados em ser donos das grandes ideias e mais dedicados a criar condições adequadas para que elas se desenvolvam. Sem dúvida alguma, a comunicação interna é uma dessas condições.

Reconhecer as relações de confiança: em uma época onde descuidar da reputação é tão irresponsável quanto atravessar uma avenida movimentada andando com olhos vendados, a confiança passa a ser um ativo intangível ainda mais importante para sustentar a longevidade da organização. Um dos aspectos estratégicos da comunicação interna é promover os componentes que sustentam as relações de confiança, como por exemplo: integridade, ética, transparência, experiência e credibilidade. Estimular e evidenciar a prática desses componentes não só fortalece a cultura organizacional, como também gera forte impacto na diminuição dos custos e na consolidação dos lucros.

Para finalizar quero enfatizar a importância do principal executivo reconhecer a gestão da comunicação interna e a gestão de pessoas como questões estratégicas e não táticas. Uma organização ineficiente na comunicação interna gera fragilidade na cultura organizacional e isso será cada dia mais inaceitável. É necessário estar consciente que uma empresa com atitudes que reforçam seus valores, é o caminho para obter resultados financeiros que sustentáveis. É fundamental promover a determinação e a motivação necessárias para viver um propósito verdadeiro e valioso, conectar, integrar, compartilhar ideias e reconhecer as relações de confiança como um meio inegociável, não só para a evolução do negócio, mas também para ser referência na sua área de atuação.

Gerson Ferreira.

Fundador e gestor da Bronze Branding, uma consultoria que nasceu para ajudar organizações e pessoas a sustentar relevância por meio da plenitude da identidade.

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